O
Evangelho deste XXIII Domingo comum (Lc 14,25-33) inicia afirmando que grandes
multidões acompanhavam Jesus. É interessante esta constatação. Quase sempre
Jesus esteve acompanhado por muita gente: quando realizava milagres, tais como
multiplicar pães, tocar nos enfermos e curá-los, expulsar demônios, sermão da
montanha, até mesmo no calvário Jesus foi seguido por uma multidão. É evidente
que nem todas as pessoas que o acompanhavam estavam decididos a segui-lo de
verdade.
A
grande maioria “seguia” Jesus somente por interesses pessoais, tais como
milagres, pães, curas, ou até mesmo por curiosidade, principalmente no caminho
da cruz, onde a morte do Filho de Deus se tornou um espetáculo. Ali no
Calvário, Jesus foi abandonado pelos discípulos (amigos), pelos que ele
defendeu, curou, alimentou, salvou. Foi seguido por pouquíssimos. Das multidões que o seguiam: Desde aquela da
multiplicação dos pães, mais de 5 mil, aquela que o saudou na entrada triunfal
em Jerusalém gritando: Hosana ao filho de Davi, passando pelos doze que estavam
em sua prisão, culminou em apenas três ao pés da Cruz: Maria a mãe de Jesus,
João e Maria de Magdala.
·
Hoje é ainda deste jeito: multidões se apertam ao
redor de Jesus, mas de fato não o seguem de verdade. Ele continua abandonado,
quase sozinho no calvário.
Jesus volta-se
então para esta multidão coloca as condições para quem quer segui-lo até a
cruz:
·
“Se
alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus
filhos, seus irmãos e irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu
discípulo”.
Estas palavras de Jesus,
se levadas ao pé da letra parecem ofensivas e chegam de fato a chocar. O que
Jesus quer dizer então? Certamente ele não está dizendo para não amarmos nossos
pais, filhos, esposo ou esposa. Não está sugerindo brigas e divisões entre as
famílias. O que Ele está dizendo é que o nosso amor a Deus deve ser maior que
todos os outros amores e é o amor a Deus quem dá significado aos outros amores.
Jesus sempre pregou o amor e a união como condição para a vida cristã. O maior
mandamento da Lei de Deus é o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo
como a si mesmo.
Jesus amava muito sua
família, tinha um carinho especial por seu pai e sua mãe, sempre demonstrou
amor por seus amigos e discípulos, no entanto Deus sempre esteve em primeiro
lugar em sua vida e, justamente por isso, foi que amou a humanidade de maneira
tão profunda, “tendo amado os seus,
amou-os até o fim” (Jo 13,1)!
·
“Quem
não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo”
Também em Lucas 9,23
lemos: “Se alguém quiser vir após mim,
negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me”. Em Mateus 10,38: “Quem não toma sua cruz e não me segue não é
digno de mim”.
A cruz é condição
indispensável para ser discípulo de Jesus. Quem não assume a sua cruz
diariamente não pode ser discípulo de Jesus.
A cruz foi um
escândalo para os judeus e continua sendo para o mundo pós-moderno, por que
significa o fracasso do “todo poderoso” homem. Até mesmo nós cristãos queremos
estar com Jesus na Glória, no Tabor, e nunca no calvário, entretanto, não
podemos esquecer que estar com Jesus é segui-lo na cruz e na Ressurreição, como
se diz nos casamentos: prometo ser fiel
na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Assim deve ser a nossa
união com Deus.
A Cruz sem
Ressurreição é fracasso e destruição. A Ressurreição sem Cruz é uma ilusão. A
cruz e a morte como sofrimento não salva ninguém e não se pode querer buscá-la,
pois essa não é vontade do Pai. O Pai não quer a morte e o sofrimento somente
como morte e sofrimento, mas como fidelidade de testemunhas do seu amor para
com os irmãos.
A cruz só tem sentido
como existência de amor que se esquece de si mesmo pela pessoa amada. É
entregar-se por esse amor, é amar sem esperar nada em troca, como fez Jesus, só
aí a cruz tem sentido.
·
“Qualquer um de vós, se não
renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo”.
Todas as opções e decisões
da vida exigem renúncias. Quando ouvimos a palavra desapego nos assustamos.
Jesus é o modelo de desapego. Desapegou-se de sua divindade e encarnou-se,
fez-se homem. Tendo nascido entre nós, desapegou-se de uma vida burguesa e
cheia de mordomia, fez-se pobre, ele mesmo disse que não tinha “nem onde repousar a cabeça” (Lc 9,58).
Ser discípulo é entregar-se
a Deus. Somente no total desapego é que faremos a total entrega. Esvaziar-se do
secundário é a melhor medida para poder encher-se do que é precioso.
Quem quiser segui-lo, tem
que estar atento a estas condições, pois pode acontecer como “alguém que quis construir uma torre e não
sentou primeiro para calcular os gastos e saber se tinha o suficiente para
concluir a obra, começou e não concluiu, então ficaram zombando da cara”, ou
“como o rei que antes de enfrentar uma
guerra calcula seus soldados e mede sua força”!
Jesus nunca escondeu as
condições para sermos seus discípulos, nunca nos disse que seria fácil, mas
nunca nos disse que seria impossível, ele mesmo está conosco nesta caminhada,
sigamos em frente, pois este caminho de vida proposto por nosso Mestre é o
único que nos fará verdadeiramente felizes.
Pe. Erivaldo Gomes
padreerivaldo@gmail.com


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